The Time of My Life

Não eram 10 da manhã. Não eram nem 10 da manhã e o caos já imperava. Meia xícara de café largada. Meia. Quem inventou a analogia do copo meio cheio como uma perspectiva positiva só podia está falando de água. Não de café. Nunca de café.

Liam estava empenhado em me mostrar que não existe “cedo demais” quando o assunto é birra. Aquela era sua segunda do dia. Homérica, a performance de uma vida; o menino é esforçado. Primeiro porque eu não o deixei brincar com os produtos de limpeza. Depois porque eu não o deixei rabiscar o edredom. De canetinha. Permanente. Sou mesmo uma mãe megera.

Acho que ele nem lembrava mais porque chorava quando eu pergunto: quer um abraço? Isso tem funcionado bem ultimamente. Não preciso racionalizar o “não,” só preciso oferecer colo. Liam levanta os olhos marejados e eu prendo a respiração. Ele sorrir meio torto, conta até quatro começando do três, corre e pula em meus braços. Sinto aquele cheirinho que me é tão familiar e fecho os olhos: vamos dançar, filho!

Talvez porque a maneira como eu o levantei no ar, me lembrou a icônica cena do filme Dirty Dancing, coloco Time of My Life no celular. Rodopiamos pela cozinha bagunçada. Esqueço a louça do café da manhã ainda na mesa. Esqueço o quanto a cerâmica está fria sob meus pés descalços. Ele deita a cabeça em meu ombro e nos perdemos no ritmo.

Tento cantar a letra que sei de cor. I’ve had the time of my life, no I never felt this way before… Mas a voz trava na garganta e preciso engolir o nó. Foi um estalo: é isso! Esse é o “time of my life.” Esses são os melhores momentos da minha vida. Esse é o ápice; é pra onde todos os outros momentos me conduziam.

Casamento feliz e filho saudável no colo. Madura o bastante pra me aceitar, jovem o bastante pra ainda sonhar. Quantas vezes quando adolescente imaginei como essa época da minha vida seria? E agora estou aqui vivendo e às vezes me pego tentando apressar o processo. Pra quê? Pra chegar a época onde os filhos não fazem birra e a cozinha fica arrumada e o café já não esfria? E aí talvez meu abraço já não cesse as lágrimas do filho, talvez meu corpo já não seja tão cheio de energia, talvez eu tenha mais tempo com marido mas o sexo já não seja tão bom. Quem sabe a casa seja maior e o peso das contas também. Quem sabe o tempo traga muito mais dores do que remédios. Quem sabe os sonhos todos já não pareçam tão possíveis quanto parecem hoje. Quem sabe então eu tenha que viver do passado, do hoje que por vezes eu tanto tento apressar.

A nossa geração acostumada com facilidades e imediatismos por vezes não percebe que tudo isso faz parte do “iniciar uma família.” A casa pequena, o orçamento apertado, a bagunça na cozinha, as noites mal dormidas, as birras dos filhos.  É assim para quase todo mundo. E quando converso com pessoas mais velhas, todas elas sentem saudades justamente dessa época da vida.

Abraço o Liam mais forte. Canto com vontade dessa vez. A voz desprendida pela leveza da constatação. I’ve had the time of my life… Esses são os melhores momentos da minha vida! Tenho um filho saudável e um corpo cheio de energia que rodopia pela cozinha em ritmo com a música. Abraço o caos. Sinto uma profunda gratidão por ele. É pra ser caótico. É pra ser assim. Exatamente assim. Café gelado e louça espalhada e os pés descalços no chão da cozinha.

Fernanda Marques @eagoracinderela

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