A Fé e a Feminista

Logo assim que Liam nasceu, em meio a enxurrada de roupinhas fofinhas e bichinhos de pelúcia que acompanharam as primeiras visitas, ganhei de uma amiga um presente diferente: o livro O Poder da Mãe Que Ora. Vivenciando a nova e estranha realidade de quem fazia pouco além de sentar com o filho dormindo no colo, li o livro rapidamente mas com a curiosidade meio dormente de quem costuma ler qualquer coisa em suas mãos. Certamente, não era o tipo de livro que me despertaria interesse. Primeiro porque eu passo longe de qualquer leitura que invoque, ainda que vagamente, o conceito de autoajuda. Segundo porque religiosidade andava há algum tempo bem afastada da minha lista de prioridades.

Nascida e criada num país predominantemente católico, me vestiram até de anjo para coroar Nossa Senhora. Não fosse pela rebeldia que sempre morou em mim, talvez eu tivesse sido o clichê ambulante da boa menina cristã do interior. Mas aí veio a faculdade e os pensadores gregos e Nova York e a família judia com quem morei e a dissolução do meu casamento e o feminismo e a professora da disciplina de Estudo das Mulheres e o namorico de verão com o carinha mulçumano. Veio um mundo de conhecimento, de outras verdades que não as minhas, e com ele uma avalanche de questionamentos que abalou a minha fé.

Ficou difícil de reconciliar certas doutrinas mediáveis com o que eu considero uma forma justa e igualitária de se viver. Ficou difícil de engolir as atrocidades cometidas historicamente em nome da religião. Ficou difícil de entender certos pensamentos arcaicos que mais distanciam do que aproximam as pessoas dos caminhos de luz e amor. Ficou difícil justificar essa reinvindicação do monopólio da bondade. Ficou difícil de calar diante de tanto patrulhamento ferrenho, não só das leis de países supostamente laicos como também do estilo de vida alheio.

Aí, quando Liam tinha menos de 2 meses, fomos mandados para Emergência por causa de uma picada de mosquito infeccionada. Foi sem dúvidas o momento mais assustador da minha até então curta vida de mãe. Senti pela primeira vez meu coração comprimir com todo peso do amor materno revertido em medo. E orei. Orei com a entrega de quem nunca teve suas convicções abaladas. Orei com o abandono de quem confia que nesse mundo maluco de tanto ódio, existe algo de maior significado. Uma mãe orando pelo filho como tantas outras mães em tantos outros lugares, em tantas outras épocas, em tantas outras religiões. E eu, diante da minha impotência, senti o poder das palavras proferidas acalentar meu coração.

A maternidade me tirou muitas coisas e me trouxe outras tantas, uma delas foi a certeza de que rótulos são imperfeitos e limitantes. Posso me apropriar de rótulos aparentemente antagônicos como “católica” e “feminista” mas nunca serei reduzida aos estereótipos e caricaturas que ambos evocam. Num mundo cada vez menos preto e branco, me esforço diariamente para que meu filho perceba e respeite as mais variadas formas e nuances do amor. Mas espero também que ele ande acompanhado da fé pelas esquinas escuras da vida, caso meu amor por ele não seja suficiente como guia. Quero que ele acredite em Deus principalmente na forma de bondade nos corações de estranhos. Que ele aprenda que ter fé não significa a ausência de questionamentos, mas sim a capacidade de crer, e mais importante ainda, a capacidade de fazer o que é justo e correto, mesmo se questionando.

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