A Arte de Se Fazer Desnecessária 

Acho que ser mãe é viver eternamente naquele lugar entre a nostalgia pelo que se passou e a antecipação do que ainda estar por vir. Você mal pode esperar pelos primeiros… Primeira gargalhada, primeiro “mamãe,” primeiro passo, primeiro “eu te amo.” Mas depois morre de saudades e começa a temer os últimos… Última mamada, última ninada, última fralda. O coração de uma mãe está para sempre preso nesse lugar surreal entre a alegria de ver o filho crescer e a tristeza de saber que nunca viverá certos momentos novamente.

A urgência que temos em presenciar cada momento brota do pânico, sútil mas potente, que nos assola junto a certeza de que nunca mais teremos esses momentos de volta. Nunca mais teremos nossos filhos, exatamente como eles são hoje, de volta. Eles nunca mais nos amarão com tanta urgência ou perdoarão as nossas falhas com tanta generosidade.

Em meio a tanto cansaço e frustração, na correria do cotidiano, fica fácil perder de vista o simples fato de que eles crescem. Amanhã já estarão mais crescidos e o hoje tem tempo contado. As fraldas estão contadas, as mamadas, os bracinhos esticados em nossa direção. As febres, os dentes, as noites mal dormidas. Tudo passa, tu-do, o mantra da maternidade. E talvez seja exatamente esse o maior conforto e a maior tristeza de uma mãe. Daqui a pouco a gente escuta um “mama”, que vai virar um “mamãe”, que muito mais cedo do que gostaríamos vai virar simplesmente um “mãe.” E nosso colo, de uma hora para outra, será pequeno demais.

Eles crescem; é a natureza da vida. E é maravilhoso testemunhar esse crescimento. É delicioso acompanhar cada avanço e descoberta. Cada conquista deles é motivo de orgulho para nós, por mais simples que seja. É recompensador, é reconfortante; a prova de que mesmo não sabendo tudo, estamos sim no caminho certo. É tranquilizador. Entre erros e acertos nossos, eles avançam. Às vezes as custas de lágrimas e frustração, eles aprendem e nós também. E quando eles realizam sozinhos as mais simples das tarefas, vemos isso como um sinal de que estamos conseguindo e renovamos nossa fé. Mas, porque ser mãe é viver em eterna ambivalência, sofremos um pouco com a constatação de que cada sinal de independência é também um sinal de que vamos nos tornando obsoletas.

Ensinar nossos filhos a serem independentes é a meta desde o início. Diariamente os ensinamos habilidades e valores para que um dia eles possam seguir o caminho sem a gente. Mas junto com a euforia de cada um dos nossos êxitos, bate também uma pontinha de saudade antecipada, afinal ser mãe é um exercício diário na arte de se fazer desnecessária.

Nesse lugar entre nostalgia e antecipação, mora também a certeza de que o futuro promete coisas lindas mas o nosso hoje com eles é um presente que já não volta mais.

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