Ser “só” mãe importa?

 

Pouco tempo depois que meu pai chegou, ele me chamou para uma conversa séria. Ele estava preocupado comigo, preocupado que eu tivesse me perdido muito dentro da maternidade. Ele acha que é hora de olhar para mim novamente, me dedicar a uma carreira, reganhar independência financeira, focar no futuro. Para ilustrar seu ponto de vista e me persuadir, ele usou como exemplo a própria mãe. Minha avó escolheu se dedicar integralmente aos 7 filhos, o que na época não gerava qualquer estranheza, na verdade era o esperado, mas ela foi dessas mães que curtia de verdade a companhia dos filhos pequenos numa época quando crianças eram para serem vistas e não ouvidas. Meu pai contou, e até então eu não sabia, que minha avó era dessas que sentava no chão para brincar, ensinava os filhos a jogar baralho, deixava com que eles desmontassem a casa, fazia lanches para turma de amiguinhos. Sentado na minha cozinha, meu pai, com os olhinhos brilhando, relembrou sua infância feliz. No entanto suas feições endureceram minutos depois, ao afirmar que nada disso parecia importar agora; ele e seus irmãos pareciam nem lembrar. Não que meu pai e tios sejam particularmente ingratos, são apenas “crescidos.” Sabe como é, a vida e sua sede incessante por continuidade. Os filhos da minha avó cresceram e formaram suas próprias famílias e à ela restou uma aposentadoria de quem nunca teve uma carreira.

Entendi o que meu pai quis dizer, bem como sua intenção em dize-lo. Dele foram as palavras de um pai preocupado com o futuro de quem, embora crescida e agora mãe, continua sendo filha. Dele foram as palavras de um pai que investiu muito na educação da filha e que, acima de tudo, sempre acreditou no seu potencial. Mas, ainda assim, meu coração partiu. Imaginar que tudo que eu tenho feito durante esses dois últimos anos da minha vida não terá qualquer relevância na vida do Liam foi como se meu espírito perdesse toda luz. Murchei. De repente imaginei um futuro onde as reverberações da minha escolha trouxessem um impacto negativo para vida do Liam. E se ele quiser um estilo de vida que não podemos dar? Afinal, ele não foi consultado quando eu e o pai dele decidimos que as renúncias necessárias para se viver com uma renda só valeriam a pena. E pior, se algo acontece com o pai dele? Afinal Ray tem um trabalho perigoso. Ou se algo acontece com nosso casamento? Afinal as pessoas vivem sempre felizes dentro de um relacionamento até não viverem mais.

Claro que antes de escolher ficar em casa eu havia levado todos esses fatores em consideração. Sei dos riscos que a minha escolha envolve, mas se for para viver me planejando sempre para os piores cenários possíveis, nem levantaria da cama. Viver e amar são dois atos de fé e decidi que as recompensas valeriam os riscos. Mas se tudo que considerava mais importante não importa de verdade, só me restavam então convicções estremecidas. Moí e remoí e dessequei a conversa com meu pai e tudo que conseguia pensar era na frase do filme Sex and City: “ela era uma garota esperta, até se apaixonar.” Mas no meu caso seria mais algo como: “ela era uma garota esperta, até se tornar mãe.”

Saí para jantar com o Ray alguns dias depois e falei que estava pensando em voltar a trabalhar. Ray se espantou. Para quem estava programando o segundo filho para o final do ano, começar a procurar por emprego agora não faz mesmo sentido. Contei sobre a conversa com meu pai. Chorei. Chorei todas as minhas dúvidas e todos os meus medos e toda a pressão que ser mãe nos dias de hoje envolve. Chorei a vontade de poder estar em dois lugares ao mesmo tempo. Chorei a vontade de ter algo meu sem que isso signifique que eu tenha que ver meu filho apenas 2 horas por dia. Chorei a necessidade por um equilíbrio que me escapa. Chorei por mim e por tantas outras mães que nem sequer podem escolher. Chorei até o rímel escorrer e a garçonete trazer mais guardanapos olhando para mim com expressão de pena.

Quando as lágrimas finalmente cessaram, encontrei olhos azuis do outro lado. Neles aquela calmaria familiar, aquela calmaria que às vezes passa por frieza. E as palavras proferidas pelo dono daqueles olhos, encontrei novamente meu chão: “Não sei como seu pai pode dizer que tudo que a mãe dele fez já não importa. Ele é quem ele é hoje por causa dela. Ele é o pai que ele é para você porque ela foi aquele tipo de mãe. Liam pode não lembrar especificamente de tudo que você faz, mas as conexões que vocês formam todos dias irão acompanhá-lo pelo resto da vida. Ele pode não lembrar mas ele vai ter amor acumulado, amor que ele irá espalhar pelo mundo, amor que veio de você, de nós.”

Dias depois postei (no Stories) um vídeo do meu pai dançando com o Liam pela sala. Alguém me perguntou se meu pai era assim comigo e meu irmão quando éramos pequeno. Algo clicou dentro de mim. SIM! Meu pai era exatamente assim! As minhas memórias mais felizes da infância incluem meu pai. Meu pai brincando de bola com a gente. Meu pai me ensinando a andar de bicicleta. Meu pai arrastando um lençol pela casa comigo e meu irmão sentados em cima. Eu tive (e tenho!) um pai amoroso, divertido e presente quando um número considerável de mulheres da minha geração não pode falar o mesmo. E hoje vejo por trás de cada uma das minhas memórias, as memórias que meu pai tem da mãe dele. Cada segundo de atenção que ela dedicou a ele, cada vez que ela sentou no chão, cada brincadeira…. tudo isso importava antes e ainda importa. Tudo isso ainda vive nas brincadeiras que eu faço com meu filho. Eu sentada no chão fazendo meu filho sorrir sou um produto da minha avó fazendo o mesmo tantos anos atrás com os filhos dela.

O pai e avô que meu pai é, a mãe que eu sou e o pai que Liam será um dia, tudo isso está ligado a minha avó. E que ninguém ouse me dizer que o que ela fez e o que eu e você fazemos não é importante! Toda escolha traz renúncias e estou em paz com as minhas, mas o que eu faço importa. Para mim. Para meu filho. Para o mundo.

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12 comentários em “Ser “só” mãe importa?

  1. Fer tava lendo as coisas do meu curso de child care e nessa citacao lembrei de você, entāo sim! quem fica em casa com o filho ajuda no desenvolvimento dele e muito !

    “The highest aspescts of mental development can be traced to a child’s loving interactions with his parents in the first years of life” – Dr Stanley Greenspan, clinical professor of psychiatry, behavioral science, and pediatrics at George Washington University

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  2. Oi! Eu sou você, daqui a uns 20 anos… Fiz as mesmas escolhas, passei sufocos e dúvidas parecidos… Na verdade, ainda passo… Meu primeiro bebê tem 19 anos, agora. A irmã tem 15. E vou te dizer: não fica mais fácil, com o tempo. Os questionamentos sobre a carreira abandonada depois de tantos anos de intenso estudo, como aluna brilhante… As consequências financeiras, o intercâmbio que não dá para mandar as crianças… é duro. Ainda mais para quem pensou, mas não teve coragem de sair do Brasil antes da era Skype-WhatsApp. Se eu pudesse voltar atrás, o que faria diferente? Ficaria ainda mais com eles! Houve momentos em que tive que voltar a trabalhar, e ia dilacerada, todo dia. Meu coração ficava em casa. Parei, recomecei, parei, recomecei… Não é fácil ser mãe. Nunca foi. Mas nós temos uma recompensa que só nós mesmas entendemos, não é? Felicidades. Não vai ser fácil, mas vai valer MUITO a pena! Cada segundo!

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  3. Esse texto é para ser lido de tempos em tempos… li ele em Abril, em Maio e hoje de novo… e voltarei aqui para llê-lo novamente sempre que meu coração ficar angustiado devido as minhas escolhas. Aliás, acabo de ter uma ideia, vou imprimir (com os devidos créditos) e guardar no livro do bebê para que meu filho, minha futura nora e meu neto leiam daqui a alguns anos e percebam quanto amor lhe foi dado ao longo de sua vida. Obrigada mais uma vez, Fer.

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  4. Acho que o importante é estar bem com suas escolhas e que elas sejam suas e não impostas por uma pressão social! Sou filha de um pai que trabalhou a vida inteira não teve muito tempo para os filhos e se me perguntar se isso diminui o amor que sinto por ele vou lhe responder que NÃO! Amo meu pai imensamente porque sei que tudo o que fez foi para que eu e meus 2 irmãos pudéssemos ter boas oportunidades, além de ter me dado um ótimo exemplo e me mostrado que sim vc pode ter uma carreira e mesmo sim ser um pai amoroso e dedicado a família!

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  5. Eu acho lindo e muito romântico essa visão,mas o mundo mudou e nos dias hoje ser somente mãe e do nina de casa vai te custar um alto preço pq seu filho vai crescer e vai ter a vida dele talvez mais rápido do que você imagina e também se algo acontecer com seu marido como vc vai sustentar essa criança? Acho uma certa ingenuidade confiar tanto assim na renda do seu parceiro

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    1. Nem costumo responder comentários aqui mas senti a necessidade de responder o teu. Se tu acha ingenuidade da minha parte “confiar” na renda do meu parceiro, acho prepotência da tua fingir que conhece a minha realidade. Não é porque escolho, por hora, ficar em casa com meu filho que não tomo inúmeras precauções pra assegurar a segurança financeira dele e a minha. O “só” mãe está em parêntesis no texto porque não é “apenas” que o eu sou. Não abdiquei do meu cérebro pra usar meu útero. Meu filho vai crescer muito rápido sim. E é justamente por isso que escolho aproveitar cada segundo dessa fase. Não questiono a escolha de uma mãe que trabalha, não a chamo de desnaturada nem digo que ela terceiriza os cuidados com seus filhos. Achar que sabemos a realidade e o que é melhor para outra mulher é paternalista, é o que faz tão rara a tal sororidade.

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  6. Na minha opinião você se ofendeu de maneira desnecessária por um comentário real! Realmente as fases boas de maternar nos romantizam e sabemos que a realidade da vida financeira e conjugal nem sempre acompanham… não temos que concordar, é somente uma opinião e sem agressão! Acredito que a publicação da Eliana te deixou vaidosa e isso ficou evidente! Você já escreveu sobre a forma que seu casamento começou e sobre o início da gravidez e vida a dois, assim torna-se difícil acreditar que realmente vocês tiveram planos financeiros e ainda tenham essa gestão e controle! É minha visão, não é realidade e não tem que concordar!

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    1. Você tem todo direito a sua opinião, mas eu achei sim que o comentário foi desnecessário por indagar sobre o futuro do meu filho e ainda chamar de ingênua uma escolha alheia sobre a qual uma estranha não sabe detalhes. Enxergar o lado romântico da maternidade não significa ignorar os desafios que ela e uma vida a dois apresenta. É exatamente esse tipo de visão simplista que faz com que as pessoas julguem umas às outras. Sobre a publicação da Eliana, você tem direito de achar o que quiser também. Sou muito ciente de que isso não acrescentou nada em minha vida e não tenho porque ficar envaidecida. Sobre o meu casamento, de novo uma visão preto e branco. Por termos vivido uma gravidez não planejada, tivemos sim perrengues iniciais. Mas não quer dizer que isso não tenha mudado em 2 anos e meio nos quais meu marido avançou e sua carreira. Ou que não possamos tomar precauções em termos de um futuro. Ou que não tenhamos planos bem definidos sobre o que aconteceria se nosso casamento não venha a dar certo. Enfim. Você tem todo direito de pensar o que quiser mas a partir do momento que sua visão sobre a minha visa e vira um comentário na minha página, eu tb me dou o direito de responder da forma que eu achar necessário. E acho bem interessante mesmo que você acompanhe meu Instagram mas tenha se deslocado até aqui pra fazer esse comentário.

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  7. Fernanda, porque essa defensiva toda? Li o texto é fiquei encantada com a linha romântica sobre a maternidade e a escolha de “só” ser mãe. Porém ao seguir a leitura através dos comentários, senti fragilidade na sua escolha. Prossiga com o seu ideal… Boa sorte!

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    1. Maria Angela, não é fragilidade pela escolha. Ela foi tomada de forma muito consciente. Pesando pros e contras. O que me incomoda é a necessidade que uma estranha tem de questionar essa escolha. Eu nunca chegaria para uma mãe que trabalha fora por opção e falaria: “mas nossa, porque você terceiriza os cuidados com seu filho? Por que teve filho então? Você não sabe da importância do vínculo entre mãe e filho nessa primeira infância? Seu filho vai crescer mais rápido do que você imagina. Acho um pouco de ingenuidade da sua parte achar que creche/babá cuida igual.” Entende onde eu quero chegar? O que eu defendo não é a minha escolha, e o respeito às escolhas de outras mulheres, inclusive aquelas que optam por não ser mãe. Boa sorte pra vc tb!

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