Dias de luta, dias de glória 

Ah, não me venham com seus poemas e suas flores, hoje não é dia de celebrar nossa pseudo delicadeza, beleza ou dom de gerar vida. Hoje é dia de rejeitar o chauvinismo masculino, combater a misoginia e refletir sobre os conceitos patriarcais ainda existentes em nossa sociedade. Hoje é dia de celebrar o Feminismo não só como um movimento de grande relevância histórica, mas como ideologia de vida para o presente. Hoje é dia de desmentir mitos e propagar verdades.

Que me desculpe William Shakespeare mas fragilidade, teu nome nunca foi mulher! Não nascemos geneticamente predispostas a gostar da cor rosa. Nosso cromossomo X a mais não nos garante doses extras de serenidade e ternura. Não somos heroínas domésticas ou “o mais sublime dos ideias.” Não somos categoricamente santas ou devassas. Não somos unicamente definidas pelo matrimônio ou pela maternidade. Não temos que escolher entre usar nosso útero ou nosso cérebro. Não pertencemos em um pedestal, sempre adoradas mas nunca ouvidas. Não nos resumimos a estereótipos e noções ultrapassadas de feminilidade. Nossas escolhas são individuais e não precisamos nos encaixar em qualquer padrão antiquado.

Existe um machismo tão intrinsicamente incorporado em nossa sociedade que quase sempre passa por imperceptível. Os meninos da nossa geração assistiam o He-man com sua força incalculável e feitos espetaculares; nós assistíamos A Pequena Sereia. Sentávamos lá esperançosas e deslumbradas e testemunhávamos Ariel oferecer a própria voz, sua principal habilidade de expressão, em troca de um belo par de pernas para que pudesse correr atrás de um cara. E achávamos perfeitamente natural! Aprendemos desde cedo que não precisamos ser senhoras do nosso próprio destino; tudo que precisamos é de um príncipe encantado e viveremos felizes para sempre. Mas até então somos bombardeadas com imagens retocadas por Photoshop como padrão universal de beleza e desenvolvemos uma insatisfação crônica com nosso corpo. Existe na mídia uma verdadeira obsessão com a objetivação da mulher. O corpo feminino virou instrumento comercial! Nudez é a jogada de market da vez seja para vender a cerveja ou a novela. Expectativas desleais, padrões inatingíveis. Mas corremos e suamos e agachamos. Como a Cinderela fez tudo parecer tão fácil? Ela era linda até esfregando o chão! Mas vamos lá. Aumenta o peito, encolhe a barriga, alisa o cabelo. Bulimia pode, anorexia também. O que não pode mesmo são quilinhos a mais. Vale plástica, vale malhação, vale até simpatia. Tudo para o príncipe!

Enquanto isso no mundo real… O salário das mulheres permanece 28% inferior aos dos homens. O número de vereadoras, deputadas e senadoras é baixíssimo, apesar de as mulheres serem maioria da população. Uma em cada cinco mulheres já foi vítima de violência doméstica e essa estatística aumenta a cada 15 segundos. Apenas 2% das mulheres consideram-se bonitas. Uma em cada quatro universitárias sofre de algum tipo de distúrbio alimentar. Mesmo com a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, apenas 34,6% dos homens as ajudam nas tarefas domésticas. Ah, viva a igualdade!

O Dia Internacional da Mulher nos possibilita examinar o passado e comemorar as guerreiras que ousaram desafiar os padrões e sacrificaram tanto para que hoje possamos ter direito ao voto, a pílula anticoncepcional, a liberdade de expressão. Mas também é dia de reavaliar o presente e o que é tido por norma em nossa sociedade. É dia de agradecer os sacrifícios das nossas mães e fazer o possível para amenizar os sacrifícios das nossas filhas em um mundo que, infelizmente, ainda é dos homens.

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