O Menino e a Cozinha

Eu passo uma quantidade de tempo alarmante me preocupando com meu filho. Se você é mãe (ou pai) deve saber bem do que eu estou falando. Me preocupo com uma infinidade de coisas, desde coisas mais corriqueiras que vivemos agora como “será que ele está passando frio? Dormindo bem? Comendo vegetais o suficiente?” a coisas mais complexas em possíveis senários futuros. Me preocupo com bullying, má influência de amizades, drogas–como eu me preocupo com drogas!– mas posso afirmar com toda convicção que nunca, nunquinha, nesse mar de interrogação no qual navego, perdi um segundo de sono ou do meu dia me preocupando com quem meu filho amará no futuro.

Liam ganhou um kit de vassoura/esfregão/espanador/pá quando tinha por volta de 1 ano; foi o primeiro brinquedo que comprei para ele que tinha acabado de dar seus primeiros passinhos. Ele não podia me ver varrendo a casa que marchava atrás de mim feito patinho com aquele gingado de quem ainda não se tornou mestre na arte de andar, então pensei que seria legal que ele tivesse sua própria vassourinha e nem sequer hesitei em comprar. Nesse Natal ele ganhou um fogão com panelinhas numa tentativa óbvia e infrutífera que ele esquecesse das minhas panelas com as quais ele tanto amava (e continua amando) brincar. Algumas pessoas acharam estranho. Fogãozinho para um menino? Como assim? Eu me espantei com o espanto alheio porque para mim estranho de verdade é constatar que ainda exista esse conceito de brinquedos exclusivamente de menino e exclusivamente de menina, ou que a exposição a um brinquedo ou outro possa acarretar qualquer tipo de influência numa futura opção sexual. Achei que tivéssemos superado isso, os filhos da amigas todos têm um fogão, mas parece que apenas tenho a sorte em ter amigas que pensam como eu. Aparentemente para algumas pessoas continua sendo estranha essa ideia de que meninos podem e devem(!) aprender a se virarem sozinhos também no âmbito doméstico.

Achar que cozinhar, limpar a casa e cuidar de um bebê é “coisa de menina” é uma forma inconsciente de levar adiante o status quo no qual infelizmente ainda vive nossa sociedade patriarcal. É perpetuar a ideia de que nossos meninos são menos capazes e que por isso nossas meninas devem viver eternamente soterradas sob o peso de uma dupla e às vezes tripla jornada. É problemático para os dois lados! E não só isso, é uma ideia impregnada de um privilégio cego, o privilégio de quem vive num nível social onde é comum e quase obrigatório a contratação de uma secretária e que, por ser feito por uma ajuda paga, acha menos digno o trabalho doméstico. Para mim, ensinar meu filho a cozinhar e cuidar da casa vai além de uma maneira de me certificar de que ele possa sustentar um relacionamento igualitário no futuro. Não posso (e nem quero!) contar que ele terá sempre alguém (em forma de uma esposa ou de uma secretária) que faça essas coisas por ele. Saber manter um ambiente limpo e preparar comidas saudáveis são para mim nada mais do que habilidades de sobrevivências; ele precisa aprender tanto quanto precisa aprender a ler e escrever.

Ontem alguém me perguntou se o Liam brinca com super heróis. Não, não brinca e isso me fez pensar. Nunca comprei nada de super herói para ele e não coloco filmes do gênero para ele assistir até porque ele ainda é muito novo, e se depender de mim, nunca vou colocar. Sei que ele será exposto a essa cultura de violência e “hipermasculinização” mais cedo ou mais tarde, mas não será pelas minhas mãos. Eu sinto que preciso contrabalancear todas as imagens que a sociedade se encarregará de passar para ele sobre o que significa ser um menino. Respondi a pergunta e informei que minha opinião era pessoal mesmo; eu já li muito a respeito do impacto que Princesas e Barbies têm nas nossas meninas mas nunca tinha lido algo sobre super heróis e meninos, e ironicamente acabei sendo mãe de menino. Já assisti o documentário The Mask You Live In e chorei pensando no tipo de estrago psicológico que causamos nos nossos menos quando propagamos essa ideia de que homens devem ser inatingíveis emocionalmente. Hoje fiz questão de pesquisar sobre o assunto e realmente encontrei vários estudos indicando impacto negativo dos filmes de super heróis da atualidade que promovem violência, vingança e perpetuam o estereótipo de “machão.” Meninos não choram, meninos não falam sobre sentimentos, meninos precisam de músculos, meninos destroem, meninos dão porrada, meninos usam armas… Essas são as ideias que circulam, essas são as ideias das quais nossos meninos dificilmente conseguirão escapar. Já pararam para pensar?

Não sou a favor da proibição de qualquer tipo de brinquedo, proibir apenas atiça a curiosidade, mas acredito em dar as nossas crianças variedade, opções para que elas se sintam representadas e o mais importante, não se sintam limitadas no modo de brincar, pensar ou agir. É importante também inserir a exposição dentro de um contexto mais amplo do que é geralmente apresentado. No dia que Liam começar a assistir filmes de super heróis (e sei que esse dia chegará que eu queira ou não), podemos conversar sobre sacrifício pessoal em prol do bem geral, sobre canalizar agressividade e tantos outros aspectos legais que esses filmes e principalmente os quadrinhos originais apresentam.

Até lá eu vou aqui no meu ato de dificílimo de contrabalancear, criando um menino que varre o chão, cozinha seu almoço, limpa bumbum de boneca e é feliz da vida.

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