Pai Não É Mãe

Hoje eu contei um número maior de pais do que de mães no parquinho. No meio da tarde de uma quinta-feira. Lá estava um pai empurrando o balanço, lá estava um pai empurrando a bicicleta, lá estava um pai empurrando as barreiras impostas pelo rótulo de que pai ajuda apenas. Pai correndo atrás da cria e talvez atrás do prejuízo emocional coletivo causado por essa ideia de que pai precisa prover somente o financeiro. Pai troca fralda, pai limpa meleca, pai ampara o filho. No final do escorregador e na vida. Mas mãe é mãe, não é? É. É sim. E pai é pai.

Pai não é mãe. E não deve ser. Não que um pai não seja capaz de cuidar de um filho ou de amá-lo intensa e despretensiosamente, mas é um tipo diferente de amor e doação, e essa diferença é fundamental para o equilíbrio da dinâmica familiar. Não estou falando que certas tarefas são essencialmente papel da mãe ou que as exercemos com mais excelência. Com exceção da amamentação, um pai é tão capaz de prover tudo que um filho precisa quanto uma mãe. São papéis diferentes mas que se complementam e a divisão de tarefas varia de lar para lar de acordo com as preferências e circunstâncias de cada família. Com tanto que o pai assuma seu papel ativamente, com o tempo e talvez alguns ajustes, a dinâmica familiar vai fluindo, mas as diferenças existem sim e respeitá-las nem sempre é fácil.

Logo que trouxemos o Liam para casa, o Ray foi fundamental durante os primeiros cuidados com o nosso filho. Como o Liam fez uma circuncisão ainda na maternidade (prática bastante comum aqui nos EUA e que optei por seguir), o Ray ficou responsável pelas trocas de fraldas já que o curativo me deixava bastante nervosa. Comecei a notar em mim então o impulso de querer microgerenciar não só as trocas de fraldas como todas as ações do Ray com o Liam. Ficava sempre ali por perto, vigiando e dando pitaco de como ele deveria fazer isso ou aquilo. Um instinto protetor avassalador tomou de mim durante os primeiros meses de maternidade e era extremamente difícil reprimi-lo. Mas com o tempo comecei a perceber que o pai do Liam não vai cuidar dele exatamente como eu cuido, e isso é bom. Na verdade, isso é excelente! Eu sou mãe, ele é pai. O papel dele, apesar de tão fundamental quanto, é SIM diferente do meu. Não porque ele seja homem e eu mulher, mas sim porque somos dois indivíduos; indivíduos bem diferentes, mesmo que agora conectados para sempre pelo amor que sentíamos por esse serzinho.

Eu sou super protetora, brincalhona, amante dos livros. Ele é calmo, mais sério e amante dos esportes. E o Liam se beneficia bastante com essas diferenças. Se eu falo “cuidado!,” o pai fala “vá em frente!”e é importante que ele escute os dois. Para cada beijinho que eu certamente darei nos dodóis dele, é legal que ele tenha também alguém ao lado falando “é só um arranhão, filho. Levanta e tenta de novo.” Por isso tento controlar os meus impulsos de microgerenciamento. Nem sempre é fácil; às vezes preciso respirar fundo e contar até 10 baixinho, às vezes vou por trás e refaço o que foi feito, mas aprendi a apreciar e a ser grata pelas diferenças que enriquecem a vida do nosso filho. Aprendi a apreciar cada vez mais o meu marido, o que por vez o encoraja a ser cada vez mais presente e participativo. Afinal, ninguém gosta de ouvir o tempo todo que está fazendo tudo errado. E quando vejo os dois assim juntinhos, quando vejo o jeito que se olham, a camaradagem e a cumplicidade, meu coração explode de orgulho e alegria.

Hoje no parque eu contei um número maior de pais do que de mãe, e voltei para casa com Bob Dylan na cabeça: the times they are a-changin. Os tempos estão mesmo mudando, people. Vejo a mudança. E já era tempo.

 

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