Comportamento Animal

Liam amou dar comida as cabras no zoológico hoje. Não consegui tirar fotos dele porque eu precisava das duas mãos para segurar a mãozinha dele bem aberta com medo que as cabras mordessem o dedinho dele. Mas ele amou! Elas vinham com a língua na mão dele e ele morria de rir porque sentia cóceguinhas. Coisa mais amada da vida!

Não sei se foi noticiado aí no Brasil mas aqui no início da semana a atenção coletiva do país se voltou para um caso que aconteceu no zoológico de Cincinnati. Um menino de 4 anos pulou a cerca, engatinhou pelos arbustos e foi para dentro do fosso que rodeava a área dos gorilas. No vídeo que alguém no local conseguiu filmar, você consegue ver o gorila primeiro tentando proteger a criança e depois, agitado por causa dos gritos das pessoas, arrastando a criança pela água. Você escuta também os gritos da mãe do garotinho, tentando transparecer uma calma que eu tenho certeza que ela não sentia naquele momento, para acalmar o filho. Ela repetia: a mamãe está aqui, a mamãe está bem aqui. Como mãe, não tem como não sentir o coração apertar assistindo aquela cena.

O vídeo, é claro, viralizou. E os ogros da internet, é claro, encontraram um bode expiatório sobre o qual derramar sua ira: a mãe do garoto. Porque a culpa é sempre da mãe. Mesmo o pai estando junto. Ativistas condenaram a ação do zoológico de matar o animal (eles alegaram que foi necessário abater porque um tranquilizante poderia deixar o animal ainda mais agitado e o garoto ainda mais em perigo). Não li muitos “graças a Deus esse garoto está bem.” Li vários xingamentos sobre a mãe e li várias pessoas alegando que a vida do gorila é tão importante quanto a de um garotinho. Do que eu discordo totalmente.  Acredito que animais devam SIM ser respeitados (e muito!) e acredito que foi uma triste fatalidade que tirou a vida de um lindo animal. Mas gostaria de ver alguém usando o argumento de que a vida do gorila vale tanto quanto a de um garoto de 4 anos ao assistir seu próprio filho sendo arrastado por um animal de mais de 200 quilos.

Muito se foi especulado. O juizado de menor abriu uma investigação. Testemunhas foram ouvidas. Uma senhora que supostamente presenciou tudo narrou que o garoto falou para mãe várias vezes “quero pular aí” (se referindo ao local onde os gorilas estavam) e a mãe repetia “não pode.”  Segundo esse mesma senhora, enquanto a mãe tirava uma foto, o menino saiu de perto dela e fez exatamente o que ele disse que iria fazer. Não sei até onde o relato dessa testemunha é confiável mas a situação toda me fez levantar algumas considerações:

1. Como é fácil julgar uma mãe! Pode até sim ter sido um erro em julgamento por parte dessa mãe, mas qualquer pessoa, mãe ou não, que já cuidou de uma criança, sabe que só é necessário uma pequena distração, um segundo que você olha para o lado, e um acidente pode acontecer. Já diz a sabedoria popular “crianças cegam a gente.” Quando você pensa que elas estão ao seu lado, na verdade elas estão subindo em algo que não devem ou pondo algo na boca ou encontrando qualquer forma inusitada de se machucarem (algumas que você jamais conseguiria prever). O Liam tinha por volta de 8 meses, quando conseguiu subir em cima de um trenzinho de brinquedo e se apoiar na televisão. Não passava pela minha cabeça que ele já tivesse a habilidade de subir em qualquer coisa na época, mas ele tinha e fez. E não se machucou porque eu vi a tempo, mas talvez dois segundinhos a mais a televisão poderia ter caído em cima dele. Não gosto nem de lembrar! Mas sei que todas nós passamos por situações parecidas. Então muito me espanta que num momento de susto para essa mãe, enquanto o filho ainda estava no hospital sendo tratado por seus arranhões, enquanto a família ainda se recuperava psicologicamente do choque, o país inteiro decide apontar o dedo em julgamento. Fato triste e bastante indicativo dos tempos nos quais vivemos. A maternidade como esporte competitivo. Não demonstramos empatia diante do sofrimento de outra mãe (mesmo que esse sofrimento tenha sido possivelmente causado por erro). O que fazemos é bater no peito e exclamar “comigo isso não aconteceria!” Mas acontece, gente. Acontece. Você e eu somos também passíveis desses erros. Você e eu também teríamos que viver eternamente com a culpa que eu tenho certeza que essa mãe agora carrega. Não precisamos apontar o dedo. Como mães, somos sempre os piores críticos de nós mesmas.

2. O celular, ainda mais para pessoas que são extremamente ativas nas redes sociais, pode se tornar uma grande distração. Nem vou entrar no mérito do que deixamos de viver intensamente enquanto tentamos capturar momentos perfeitos por trás das lentes de uma câmera ou tela de um celular. Esse é um equilíbrio que eu continuo buscando alcançar, nem sempre com sucesso. Mas o fato é que os prejuízos ocasionados às crianças pelo uso excessivo do celular pelos adultos vai além da possibilidade de elas terem que lidar com pais que nunca estão verdadeiramente presentes. O celular pode apresentar também um risco ao bem-estar físico dessas crianças no momento que vira uma distração para os pais. A razão pela qual nossos filhos se machucam quando poderia ter sido evitado se estivéssemos prestando um pouquinho mais de atenção. Por isso não filmei enquanto o Liam dava comida as cabras. Mesmo me roendo de vontade de mostrar ao pai e aos avós uma cena tão linda. Lembrei dessa mãe, aprendi com o erro dela e consigo sentir empatia por causa disso.

3. Eu já escrevi várias vezes sobre a importância de usarmos as palavras certas com nossos filhos. Talvez por gostar tanto de escrever, acredito piamente no peso das palavras. Acredito em demonstrar respeito para com nossos pequenos e acredito em conversa. Eu fico me perguntando se talvez, e sei que é um grande talvez, a história poderia ter tido um desfecho mais feliz se essa mãe tivesse respondido o filho com algo mais do que um simples “não pode.” Aos 4 anos, uma criança já consegue entender bastante coisa. Já consegue raciocinar, calcular certos riscos, estabelecer causa e efeito. O “não pode” não é razão suficiente. O “não pode” pode soar como desafio. O “não pode” por muitas vezes instiga mais do que desvia. O garoto tentou provar para mãe que podia sim, que ele conseguia. Ou talvez ele quisesse saber exatamente porque não podia. Então ele resolveu ir atrás de descobrir por conta própria. Não culpo a mãe porque sei que infelizmente essa é a cultura na qual vivemos. Ninguém para para escutar uma criança ou explicar razões. Estamos todos ocupados demais capturando momentos ou cozinhando ou nos preocupando ou conversando com outros adultos. Me pergunto se o menino teria feito o que fez se a mãe tivesse elaborado um pouco mais sua resposta. “Não pode porque gorilas são animais grandes, fortes e perigosos. Se você chegasse perto deles eles te machucariam e eu ficaria muito triste. Por isso temos que ver de longe.” Ou ” Por que você quer fazer isso? Você não está vendo bem daqui? Vamos procurar outro lugar pra ver se temos uma visão melhor?” Ou qualquer outra coisa que talvez satisfizesse a curiosidade de uma mente borbulhante de uma criança de 4 anos. Teria feito mesmo diferença? Não sei. Mas acho que vale a pena a reflexão.

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2 comentários em “Comportamento Animal

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