Você importa!

Com frequência eu me questiono até onde devo expor meus sentimentos por aqui. Afinal, não estou protegida por qualquer anonimato. Aqui está a minha vida. Escancarada para quem quiser entrar. Aqui exponho o meu bem mais precioso. E não foi uma escolha feita sem pensar, sem pesar os possíveis riscos. Mas aqui estou. Aqui estamos. Vocês sabem mais ou menos de onde eu sou e onde estou e como penso. E na maioria dos dias vocês sabem também exatamente como estou me sentindo. Mas às vezes me questiono até onde devo ir com minha transparência. Principalmente porque sei que familiares e amigos leem meus textos, gente que me conhece na “vida real,” gente que conhece meus pais.

É verdade que de vez em quando tento resguardar meu coração. Mas é verdade também que não consigo. Acabo escrevendo exatamente o que me aflige. Primeiro porque, como já disse tantas vezes, vocês são minha terapia. E se for para chegar aqui fingindo viver num mar de rosas, em que isso me acrescentaria? Mas exponho meus reais sentimentos principalmente porque sempre penso: e se outras mães estiverem passando por isso? E se elas também tiverem medo/vergonha de falar? Acabamos carregando caladas para sempre pesos, culpas e preocupações quando seria tão mais fácil e saudável conversar. Então aqui estou eu conversando. Ou melhor, escrevendo. E buscando aliviar dores emocionais.

Hoje questionei minha decisão de ficar em casa sem trabalhar. Hoje sentei no sofá e deixei com que as lágrimas caíssem livremente porque me senti um fracasso. Anos e anos investidos em educação, tanto potencial, e aos 30 anos minha vida se resume em trocar fraldas e esfregar o chão.

Fiquei pensando que a responsabilidade, a pressão, a culpa sempre são maiores para cima da mãe. Pelo menos aqui em casa. Sei que a dinâmica pode ser mais igualitária em outras casas e isso deve ajudar bastante. Mas às vezes tenho a sensação que a vida do pai do meu filho continuou enquanto eu parei a minha para viver pelo meu filho. E na maioria dos dias sou bastante feliz com essa escolha, não me arrependo. Mas tem dias que o peso dos sacrifícios faz com que seja bastante difícil levantar a cabeça. E falar sobre isso parece errado porque parece que todo mundo já aprendeu a equilibrar as coisas. Todo mundo, menos eu.

Aí pensei que merda de sociedade essa na qual vivemos onde a abnegação pessoal em prol de uma linda causa soa tanto como fracasso! Não diria que ser mãe é o trabalho mais importante do mundo porque temos mulheres no mercado de trabalho engajadíssimas em causas nobres e importantes. Mulheres que lutam pela paz mundial, pela cura do câncer, pela igualdade ou apenas por uma vida e salários dignos. Não me sinto superior a elas porque pari. Afinal tem muitas e muitas mães por aí que carregam apenas o título de mãe. Tenho consciência também que voltar a trabalhar ou não pode parecer um dilema disfarçado de privilégio para tantas e tantas mulheres para quais não gerar qualquer renda mensal nunca seria uma opção. Mas para a maioria das mulheres que tem o “privilégio” de escolher, é uma escolha que vem carregada de culpa e sacrifícios. Por isso mesmo precisamos lembrar umas as outras que ser mãe é importante. O meu dia-a-dia mundano de fraldas e chão sujos também importa. Me dedicar integralmente ao meu filho durante essa primeira infância importa. Me certificar de que ele esteja recebendo uma educação dentro dos parâmetros do que considero certo importa. Estar com ele durante suas primeiras descobertas importa. Importa para mim. Importa para ele. E importa para o mundo. Isso nunca deveria ser considerado um fracasso. Por ninguém. Muito menos por mim mesma.

Mesmo quando as coisas não estão fáceis. Mesmo quando o orçamento aperta. Mesmo quando a balança entre você e seu parceiro não parece assim tão justa e equilibrada. Mesmo quando o que você faz não parece ser valorizado ou sequer notado. Te digo: você importa! O que você faz todos os dias do momento que você acorda com o choro do seu filho até o momento que você vai dormir depois de juntar os brinquedos espalhados pela sala, tudo isso importa. Não somos pesos mortos na sociedade. Muito pelo contrário, todos os dias nos esforçamos para criar pessoas de bem que irão fazer dessa sociedade um lugar melhor e mais justo. E talvez, apenas talvez, nossas filhas não terão que se questionar tanto sobre suas escolhas.

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6 comentários em “Você importa!

  1. Nossa, me senti em cada palavra do seu texto! Hoje mesmo estava me sentindo assim…achando que pausei minha vida, enquanto a do marido segue…que lutei tanto pra me formar… Hoje pensei assim! Mas depois amanheço com a certeza que tô fazendo o melhor. rsrs
    Continue a expor seus sentimentos através das palavras, faz muito bem!
    Beijos!

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  2. Sempre estamos fazendo escolhas, desde que acordamos até a hora que vamos deitar, algumas difíceis e outras mais fáceis. Mas o que importa é que essas escolhas nos tornem pessoas melhores, mais conscientes do nosso papel na sociedade.

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  3. Me senti voltar no tempo… Hoje no terceiro filho, com a escolha de parar de trabalhar desde antes de engravidar sinto leveza e certeza do que fala no final de seu texto! Meu trabalho é importante, estou educando pessoas que vão cuidar do mundo! Mas lá trás, no nascimento do primeiro filho e a culpa de ter que ir trabalhar… O nascimento do segundo filho e a frustração de não trabalhar, não gerar renda… O sentimento que você começa a descrever, sensação de vida parada e a dos outros fluindo! Não se arrependa nunca, nada vai pagar o que você não está perdendo!!! Uma beijo minha desconhecida preferida😘

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  4. Com certeza toda mae que deixou de trabalhar fora algum dia se questiona se esta no caminho certo, assim como imagino que maes que optaram voltar a trabalhar fora também devem se perguntar se estão fazendo tudo certo! Os questionamentos fazem parte da nossa vida e acredito ser a forma como evoluímos! Quando nos questionamos e encontramos respostas, nos tornamos pessoas melhores!!! texto lindo, beijos Fe!

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  5. Oi, comecei a ler seu blog fã pouco mais de duas semanas!
    Me toca o que escreve, pois, também passei por muitas das situações que você relata!

    Quando Miguel nasceu fiquei um ano
    Só com ele e para ele! Me orgulho disso!
    Atualmente votei para a faculdade e de la volto pra casa para cuidar dele!

    Nesses cinco anos que renasci, como mãe, entendi como é maravilhosa a arte de ser mãe, de cuidar, amar, mostrar o mundo para esse ser tão pequeno e tão imenso!

    Também me envolvo em culpa e mais culpa por não estar no mercado de trabalho!
    Mas como você disse, estamos lutando e trabalhando por um mundo melhor quando cuidamos e damos valores para nossos filhos!

    Obrigada pela escrita e por partilhar seus sentimento!

    Parabéns pela mãe que você mostra ser.

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  6. Adorei o texto! Estou adorando o blog! O sobrenome de mãe devia ser culpa. Se deixamos os filhos para trabalhar, sentimos culpa. Se deixamos o trabalho pelos filhos… Adivinha? Culpa! Meu primeiro filho tem 15 anos. Quando dei a luz a ele, eu tinha 21 anos. E o deixei para voltar ao trabalho com apenas três meses! Mas, sinceramente, não me lembro de ter sentido culpa. Meu caçula hoje tem 2 meses. Infelizmente me enquadro na categoria de mães que precisam auferir renda. E lhe confesso, estou para morrer só de pensar em voltar a trabalhar! Então, independente do que se escolha, ou do que a vida escolha pra nós, A culpa é inerente. O segredo é saber lidar com isso. E se alguém descobrir como, por favor, Me conte!

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