O Cachorro de Pelúcia e a Epifania Materna

6 horas da tarde. Aquele horário quando as crias estão exaustas depois de um dia cheio, estão com fome, e você, também cansada e com fome, tenta apressar o jantar em meio a choros e reclamações. A “hora das bruxas,” alguns diriam. Me parece um termo apropriado.

Deixo o Liam brincando no quartinho dele enquanto eu vou à cozinha providenciar o jantar. Mal abro a geladeira e já escuto as reclamações dele. Tento ignorar. Ele está com fome, eu penso. Melhor me apressar. Começo a cortar vegetais. Mais reclamações, agora mais altas. Converso com ele enquanto continuo cortando mas agora as reclamações viraram choro. Largo a faca. Lavo as mãos e vou até lá. Entro no quarto já exasperada. “Nossa, filho. Você não sabe ficar um minuto brincando sozinho enquanto a mamãe faz algo!” Aí percebo que as reclamações iniciais na verdade não eram reclamações. Ele esteva latindo. Sim, ele estava imitando um cachorrinho. Era sua forma de me dizer que queria o cachorro de pelúcia que estava dentro do berço e ele não conseguia alcançar. Quando a tentativa de comunicar uma vontade sua fracassou, ele então se pôs a chorar. Olhei para aqueles olhos azuis cheios de lágrimas e senti uma dorzinha no coração. Meu filho queria algo tão simples. Ele apenas não sabia pedir.

Fiquei pensando em quantas vezes isso já aconteceu desde que ele nasceu. Quantas vezes o choro dele me frustrou e depois eu descobri que ele chorava com razão, por um motivo específico e facilmente remediado. Fiquei imaginando como seria viver a vida como uma criança. Não sendo capaz de comunicar minhas vontades, caindo com frequência porque minhas habilidades motoras ainda estão se desenvolvendo, sendo constantemente mandado e carregado de um lado para o outro sem entender o que se passa. Recebendo milhões de estímulos sem saber filtra-los e depois tendo que ficar quieto. Não deve ser fácil. Não deve ser fácil mesmo.

Lembrei da minha disciplina de Desenvolvimento Infantil na faculdade. A professora dividiu a sala em grupos e pediu que fizéssemos alguns exercícios simples mas aparentemente estranhos. O grupo ao qual eu pertencia ficou com dois: tivemos que recortar uma gravura de uma folha de papel com uma tesoura mas usando uma luva de jardineiro na mão. Logicamente as gravuras não ficaram bem recortadas. Daí tivemos que ler um pequeno texto onde as letras b, d, q, p estavam trocadas (notem que todas essas letras têm o mesmo formato mas em posições diferentes). Depois de ler tínhamos que fazer uma interpretação do texto e tivemos dificuldade de entender o que o texto realmente dizia já que toda nossa concentração estava em destrocar as letras e decifrar as palavras. A professora então explicou que é exatamente assim que uma criança aprendendo a cortar e aprendendo a ler se sente dentro de uma sala de aula. Nunca esqueci disso e agora como mãe sinto ainda mais o quanto essa empatia para com nossas crianças é realmente importante.

Pesquisamos tantos antes de ter um bebê, entramos em grupos, compramos livros e às vezes esquecemos que o mais simples é também o mais importante: ESCUTAR o que o bebê tem a dizer ainda que ele não fale. Focamos em palpites de terceiros quando nossos pequenos estão logo ali, prontos e disponíveis para nos mostrar o que querem e precisam se apenas prestarmos atenção. E não estou defendendo a ideia de que devemos dar tudo que nossos filhos querem, mas precisamos escuta-los primeiro ainda que seja para dar-lhes um não.

Não me custava deixar o jantar por 5 minutos e ir ver o que meu filho queria. Teria resolvido o problema e voltado para cozinha. E ele até poderia ter reclamado por outro motivo qualquer 2 minutos depois. Mas eu teria feito meu papel, o papel que alguém que deve sempre ouvir e ajudar. Felizmente, Liam e cachorrinho vieram para meu colo e eu sei que fui perdoada. Porque esses seres que ainda estão aprendendo a navegar o mundo e a driblar as próprias frustrações, estão sempre dispostos a perdoar as nossas. Eles sempre respondem as nossas insensibilidades com muito amor. E eu me pergunto: quem deveria ensinar quem? Quanto mais eu tento ensinar mais eu aprendo. Aprendo com um menininho de 1 ano todos os dias a ser um ser humano melhor.

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