Culpa Eterna de Uma Mente Materna



Ontem a noite foi punk. Aliás, punk é pouco. Foi heavy metal no último volume no replay. Liam sentiu dor de barriga e diarreia o que culminou numa assadura feia no bumbum dele. Perdi as contas de quantas fraldas eu troquei pela madrugada ao som de muito choro. Às 2:30 da manhã, estávamos os dois abraçados embaixo do chuveiro, exaustos. Às 3, o cansaço venceu e finalmente dormimos. Só para acordar às 5 com mais fraldas sujas e gritos.

Fomos para o sofá e lá ficamos o resto da manhã. Colados um ao outro com a camaradagem, confiança mútua e exaustão daqueles que acabaram de enfrentar juntos uma batalha exaustiva. Às 3 da tarde fomos ao pediatra.
Nada demais. Ele provavelmente comeu algo que não caiu bem. Penso eu que foram as batatas no azeite de oliva e alecrim que eu fiz para o jantar. Vai passar. Ele já está melhor e apesar do bumbum assado, continua sorrindo, brincando e de bom humor. Mas, como sempre acontece quando estou sentada esperando pelo pediatra numa consulta que NÃO é de rotina (o que, graças a Deus não é com frequência), me pergunto se eu estaria ali, se meu filho estaria ali naquela situação caso eu tivesse conseguido amamentar.Eu sei, eu sei. É um tipo de pensamento infrutífero e perigoso. Mas a maternidade é ilha do SE num oceano de culpa e às vezes eu habito essa ilha, solitária e traiçoeira. Eu sei que não existem garantias, que crianças adoecem, que filhos de amigas que amamentam já tiveram diarreia mais novos até que o Liam. Eu sei também que meu filho é extremante saudável, mas… E se? A verdade é que, quase 11 meses depois, eu continuo sentindo uma grande culpa por saber que meu filho não recebeu o melhor de mim no quesito amamentação.

Não, eu não fiz tudo que eu podia ou tudo que estava ao meu alcance. Eu fui vítima de um sistema que empurra a fórmula e da minha própria auto-dúvida sobre o que meu corpo era capaz de fazer. Eu confiei tanto que seria capaz de trazer meu filho ao mundo de parto normal, e fui. Mas, por causa de uma redução de mama aos 23 anos, duvidei que poderia amamentar e me auto sabotei.

Hoje, olhando para trás, tenho certeza que teria conseguido se tivesse insistido um pouco mais. Me dizem que talvez não, não tem como saber ao certo. Mas meu instinto de mãe sabe. E isso me dói. Fiz as pazes com as circunstâncias mas sempre vou carregar a culpa.

Eu me dei conta de que precisava escrever algo assim quando minha mãe me contou que encontrou uma seguidora minha grávida e que ela comentou que não planejava amamentar e citou o Liam como exemplo de criança que não mama e é saudável e inteligente. Fiquei triste com isso. Depois duas marcas de mamadeiras me contataram para me enviar produtos em troca de publicidade, o que eu rejeitei mas percebi que várias vezes já postei fotos do Liam com a mamadeira e provavelmente por isso mesmo essas empresas se interessaram. Então gostaria de deixar BEM claro meu posicionamento quanto o assunto.

O Liam toma leite artificial desde os 3 de vida porque eu não consegui amamentar. Eu posto fotos dele com mamadeira porque retrato aqui a nossa realidade, a realidade de uma mãe que é ao mesmo tempo grata por ter tido uma opção e frustrada por não ter tentado mais. Na mamadeira existe amor? Sim! Existiria amor até se eu tivesse que alimentar meu filho por um cano, um tubo, osmose, telepatia. Amor aqui não falta. Mas a verdade é que… Não é igual e nunca vai ser. Os nutrientes que meu corpo produz, o mesmo corpo que gestou cada molécula do meu filho, é obviamente o alimento mais adequado e completo para ele. Nada feito em laboratório se compara. NADA.

Se os benefícios sobre a saúde, apesar dos estudos, ainda não convencem, deixa então eu te contar uma coisa: LA é caro. No começo parece não fazer muita diferença, eles mamam pouco, a lata dura a semana toda e o gasto não parece ser tanto. Mas acredite, custa caro! Quando seu filho fizer 3,4 meses você estará gastando mensalmente uma quantia grande de dinheiro que poderia ser melhor empregada.
 Sabe o que mais? Amamentar é prático! Não consigo contar quantas horas da minha vida já perdi lavando e esterilizando mamadeira. Na hora de sair de casa, tem que levar mamadeiras, leite, água, ficar medindo nos lugares e ficar lavando as mamadeiras depois. E durante as manhãs, você tem que preparar mamadeira com os olhos ainda inchados de sono enquanto o bebê se esgoela no berço ou você o segura no braço e tenta preparar tudo com uma mão só. Acredite, é bem mais fácil tirar o peito para fora, ainda na cama e voltar para dormir aconchegada com ele.
Sem contar no fácil acalento que o peito traz sempre que eles passam uma doença ou stress relacionado a dentes, salto de desenvolvimento, etc.

Eu sei que é fácil romantizar e idealizar a amamentação quando amamentar o meu filho era algo que eu quis muito (fiz até curso enquanto estava grávida) e acabei não conseguindo. Mas sei também que a realidade de quem amamenta não é sempre linda e doce. Imagino que não seja assim tão fácil, principalmente no início. Escutava os relatos das mães no meu grupo com uma confusa mistura de alarme, alívio e inveja branca. Imagino também as tremendas dificuldades enfrentadas por mães que precisam voltar ao mercado de trabalho. E sei que muitas mulheres realmente tentaram de tudo. Não foi o meu caso. Não questionei o bastante. Não lutei o suficiente.

No entanto, não importa o quão exaustiva tenha sido a noite, o momento da primeira mamadeira do dia é sempre especial. O silêncio da casa, a promessa de um novo dia, eu e ele aconchegados enquanto o mundo dorme. Esses olhinhos inquietos demandando amor. Às vezes sinto que eles enxergam a minha alma. Esses olhos enxergam todos os meu fracassos e, ainda assim, me procuram o tempo todo. Eles sabem dos meus medos e das minhas falhas como mãe e me amam incondicionalmente mesmo assim. Sou grata. Sou grata porque a modernidade dos tempos fez possível com que eu nutra meu filho com fórmula. Não sinto que somos menos conectados por isso. Não acho que a mamadeira represente uma barreira de impedimento contra o vínculo materno. Meu vínculo com meu filho vem de outras vidas. Mas mesmo estando em paz com relação a isso, acredito nos outros inúmeros benefícios da amamentação, e estaria mentindo se eu dissesse que meu peito não anseia ser a fonte de alimento dele.

Às vezes, quando o tenho assim olhando para mim, imagino como seria uma visão diferente. Imagino como seria ter meu seio como alimento, como acalento. Por uns breves minutos, me permito fingir. Mas volto para minha realidade. Realidade de mãe que alimenta com a mamadeira. Uma realidade que não gostaria que fosse vivida por você. Digo isso não como mãe que sabe o que é melhor para você e seu filho, acredito, acima de tudo, na liberdade de escolha de uma mulher e me limito a respeitar essa escolha, mesmo quando discordo. Digo isso apenas como mãe que carrega uma enorme culpa. Você não vai querer se questionar sentada na sala de espera do pediatra. A ilha do SE não é divertida. Faça de tudo para não vir para cá.

 

*** Texto postado no Instagram no final de fevereiro. Vou aos poucos passar meus textos aqui para o blog, mas infelizmente não conseguirei postá-los de maneira cronológica aos acontecimentos.

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3 comentários em “Culpa Eterna de Uma Mente Materna



  1. Estou amando seu blog. Ainda estou meio perdida…mas vou me encontrar! Ler textos com uma criança de 4 anos a todo vapor em casa não é uma tarefa fácil.

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