De Volta Para o Passado. Estreando: Revista Veja

Eu tento, gente. Eu juro que eu tento poupar vocês dos meus devaneios. Juro! Em tempos de tanto ódio infundado eu até tento fingir completa alienação, no maior estilo “ignorância é benção” mesmo. Mas aí eu leio umas pérolas como essa reportagem da Veja e… Não consigo! Sinto até um siricutico nos dedos. Preciso, necessito (!) escrever. Não que minha visão dos fatos seja especialmente esclarecida, ou que minha voz tenha algo diferente a dizer do muito que já foi dito, mas preciso me unir ao coro. Nem que seja na mera esperança de torná-lo mais forte e quem sabe ouvido.

Em que ano estamos? Sério, que ano? Só posso ter dormido e acordado em algum ano da década de 50. Só assim. Porque até eu que não morro de amores pela presidente, que acredito que ela, com toda sua incompetência, tenha dado um passo gigantesco para trás na luta pela representação feminina dentro do âmbito político, até eu percebo o quão tendenciosa, oportunista e chauvinista foi essa reportagem. 

O problema não está nas definições usadas pela revista. Bela, recatada, do lar. Nada de errado com o significado denotativo destas palavras. O problema são as conotações que imperam e todo o teor da reportagem que parece muito mais adequada para uma revista do estilo Contigo! ou Tititi que uma revista supostamente política como a Veja.

Nem vou comentar sobre as implicações morais de um senhor mais velho namorar uma menina. O barco da moralidade já faz tempo que desapareceu no horizonte da nossa política. Mas o chauvinismo e a condescendência impregnados na reportagem, esses me dou o direito de comentar. O autor só faltou colocar a Senhora Temer no colo e alisar sua perna repetindo “boa menina!”

Eu sou do lar. Larguei emprego para cuidar de filho. Mas essa foi uma escolha minha e uma que, no momento, me faz completa e feliz. Ter podido escolher o melhor para mim e para minha família faz de mim uma mulher empoderada. O problema não está em “ser do lar” ou ser recatada ou usar vestidos na altura dos joelhos. A igualdade que tanto buscamos como movimento é justamente para garantir isso: nosso direito de escolher e o direito de ter nossas escolhas respeitadas. O problema consiste em santificar esse tipo de escolha, como se quem escolhesse diferente fosse menos mulher, menos mãe. O problema é que ser posta num altar te garante adoração mas não participação. O problema é tratar as escolhas de uma como molde para todas.

Eu sou do lar. Mas ser do lar não me define. Acho difícil de acreditar que não exista nada mais interessante sobre a Segunda Dama do Brasil para ser reportado do que suas idas ao dermatologista e o conteúdo de suas mensagens para o marido. Ela não faz nenhum trabalho filantrópico? Não faz parte de qualquer associação? Nunca encabeçou um projeto social como segunda dama de um país? Ela não simpatiza com causas? Não tem sonhos e gols para o país ou para ela mesma? Não levanta nenhuma bandeira como mulher? Como mãe? Não creio! Mas se esse for o caso então a reportagem da Veja foi um verdadeiro tiro no pé porque além de todos os receios que eu já tinha sobre uma possível presidência de Michel Temer, agora tenho mais um para lista: o país terá uma Primeira Dama sem substância alguma. Porque parece que tragédia pouca é bobagem quando se fala da atual situação política do Brasil.

Ficou claro para qualquer ser humano pensante que a revista tentou projetar uma imagem “estilo Amélia” e vendê-la aos seus leitores. Mas não é de se admirar. Em tempos de vale-tudo, vale até tentar vender ao povo a imagem de uma possível primeira-dama perfeita dentro dos parâmetros da sociedade. Saí a solteirona de passado questionável e entra um homem, líder de verdade, salvador da pátria no significado ao mesmo tempo mais literal e mais equivocado da expressão. E o melhor, com uma mulher apenas como coadjuvante da história apropriadamente dotada de beleza e recato. Exatamente como tem que ser. Isso se você ainda vive em 1952, é claro.

Sorte do Temer, a revista exclama terminando a matéria. Só faltou completar com palavras o que ficou tão nitidamente subentendido: E sorte do Brasil também que poderá ter uma primeira dama que sabe bem o seu lugar no mundo. No lar. Longe da esfera política e das decisões que afetam a vida da população brasileira, que consiste em sua MAIORIA de… mulheres.

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