Sobre o parto normal…

Um tempinho atrás eu postei aqui no Face sobre o documentário The Business of Being Born e os benefícios do parto normal. Minha opinião era somente baseada nas minhas pesquisas, na época falei sem conhecimento de causa e por isso agora, já tendo passado pela experiência, gostaria de reiterar minha posição. Continuo acreditando que seja o direito de qualquer mulher escolher como seu filho vem ao mundo, e optar por uma cesárea não desmerece ninguém como mãe, tão pouco faz o nascimento de um filho menos mágico e significativo. Afinal de contas tudo o que importa realmente é que mamãe e bebê estejam bem e saudáveis. Acredito também que muitas mulheres tenham tido experiências bem desagradáveis com o parto normal, talvez por causa de complicações não previstas ou por causa de intervenções médicas desnecessárias ou talvez não. A verdade é que cada experiência é única e divido agora a minha apenas como incentivo àquelas mamães que sempre tiverem vontade de ter filho normal mas ainda têm um pouco de medo.

Quando eu descobri que estava grávida, eu já sabia que aqui nos Estados Unidos parto cesáreo precisa de uma razão médica. Essa história de marcar o dia, se aprontar bonitinha e ir para maternidade aqui é coisa rara. Eu pirei. Como assim eu vou ter que empurrar essa criaturinha pela minha vagina? Jamais! Estou arrumando as malas agora mesmo; Brasil aqui vou eu. Minha mãe logo se preocupou, afinal eu sempre tive fama de dengosa, tipo aquela que chora durante a depilação e passa mal nos exames de sangue. Mas minha vida (e meu plano de saúde) está aqui então eu sabia que não ia ter jeito, essa criança nasceria em terras americanas e no “american way.” Nos primeiros 4 ou 5 meses de gravidez, eu fingi que não era comigo e me concentrei em todos os outros aspectos da maternidade. Até o aniversario de 1 ano do menino eu comecei a planejar, tudo para manter minha mente ocupada e longe da sala de parto. Mas com a data prevista para o nascimento dele cada vez mais próxima, eu resolvi que era hora de combater meu medo com conhecimento. Assisti vários documentários, li vários depoimentos, conversei com mães que passaram pela experiência e aos poucos fui percebendo que o parto normal era o certo para mim.

Minha gravidez ocorreu sem grandes transtornos, me mantive bem ativa e ganhei 14 kg (de 7 a 15 kg é o recomendável). Completei 40 semanas de gestação dia 2 de abril, a data prevista para o nascimento, mas meu obstetra esperaria até 42 semanas sem intervir com tanto que o bebê estivesse bem. Eu tentei controlar a ansiedade o máximo possível; a minha e a da minha família no Brasil tão acostumada com bebês que chegam com dia e hora marcados. Ele vai vir quando ele estiver pronto, eu repetia como mantra. Dia 2 a noite fiz uma longa caminhada pelo parque, e dia 3 as 6:30 da manhã, POP! a minha bolsa rompeu. Eu sabia que o processo ia ser demorado então falei pro Ray ir trabalhar normalmente, que eu ligaria para ele quando minhas contrações estivessem fortes. Liguei para o obstetra e ele pediu que eu fosse para o hospital só para checar se estava tudo bem. Eu mesma dirigi até lá. Depois de me examinar, ele falou que eu estava com 3 cm de dilatação e tinha duas opções: voltar para casa e esperar pelas contrações ou tomar oxitocina para acelerar o trabalho de parto. Eu queria ter da forma mais natural possível, e sabia que a oxitocina faria as contrações mais dolorosas então optei por voltar para casa. Tomei um banho demorado, e me deitei escutando música e me concentrando na minha respiração. Ao meio dia minhas contrações estavam mais fortes e vindo no intervalo de 5 minutos, então liguei pro Ray vir para casa. Como era Sexta-feira Santa, ele ficou preso atrás da procissão do Senhor Morto, tendo que cortar a procissão no meio, e explicando pro Padre que fazia cara feia: a minha mulher está tendo um filho! Ele chegou aqui esbaforido, coitado, e me encontrou bem calma passando a chapinha no cabelo. O nosso diálogo foi o mais engraçado. Ele: Amor, eu preciso de gasolina! Eu: Ué, e porque você não parou no posto? Tadinho. Acho que é por isso que somos nós mulheres que temos os filhos.

Enfim, dei entrada no hospital 1 da tarde. As 3:30 estava apenas com 5cm de dilatação e meu obstetra falou que seria melhor aplicar oxitocina para acelerar o processo porque depois que a bolsa rompe o bebê fica exposto a infecções e se ele não nascesse dentro de 18 horas, precisaria ficar em observação. Sabendo que as contrações ficariam ainda mais fortes, pedi uma peridural que foi aplicada da maneira mais tranquila possível. Não senti nenhuma dor. As 8:30 da noite, eu estava com 10 cm de dilatação mas o bebê ainda estava muito em cima, então meu obstetra preferiu esperar um pouco mais e me poupar de fazer muita força. Ele também baixou a dose da anestesia para que eu pudesse sentir as contrações e saber a hora de fazer força. As 9:30 da noite era hora do show! Com o Ray segurando uma perna, a mãe dele segurando outra e a minha mãe na minha cabeça comecei a fazer força. Não foi nada bonito. Inclusive falei pro Ray na hora que adotaríamos o nosso próximo. Mas depois de 45 minutos fazendo força, quando achei que não fosse aguentar mais, minha mãe grita (em português e sem ninguém mais entender): Estou vendo a cabeça, minha filha! Vai, força! Força! E o Liam Eudes veio ao mundo as 10:13 da noite direto pros meus braços onde ficou por um bom tempo. Aí foi só festa. Minha mãe pulava e chorava e abraçava qualquer pessoa que passasse perto dela, não havia dúvidas que ela é brasileira. O Ray chorou, cortou o cordão umbilical e segurou o filho pela primeira vez. E a minha pequena família estava completa.

Toda espera, toda incerteza, toda dor, tudo valeu a pena. A emoção do parto normal foi única e inesquecível. Mas o melhor mesmo, o que me faz recomendar o parto normal para qualquer mãe, foi o depois. 2 horas depois do parto, eu já caminhava pro banheiro. Um dia depois, enquanto recebíamos visitas, eu já estava em pé tirando fotos de todo mundo e curtinho meu filhote. 3 dias depois, eu estava fazendo compras no super mercado. Uma semana depois, eu já tinha perdido 10 dos 14 kg que ganhei e já entrava no meu jeans antigo sem nenhuma cicatriz na barriga. Hoje meu filho tem 12 dias de nascido, e depois de escrever isso vou caminhar com ele no parque. Sangrei pouco e não precisei tomar nenhum remédio. A sensação que tive e tenho até agora é de que nasci para isso. É uma coisa visceral mesmo. Brinco que deve ser o meu sangue de nordestina, sertaneja, “caba da peste.” Já tive tantos grilos com relação ao meu corpo; hoje sou grata e orgulhosa dele.

Como eu disse antes, cada experiência é única e sei que muitas mulheres até tentam ter normal e acabam não conseguindo por uma complicação ou outra. A verdade é que nada, NADA MESMO tornará menos significativa a experiência inesquecível que é trazer um filho(a) ao mundo, seja lá qual for o tipo de parto. Mas ainda existe sim uma mistificação com relação ao parto normal no Brasil (apesar de já notar uma mudança). Precisamos de mais profissionais conscientes e mais mamães informadas. A calma e a paciência do meu médico e o carinho e a compaixão da minha enfermeira fizeram TODA a diferença. Espero que esse meu relato ofereça um pouco mais de coragem às mamães interessadas. Se você tem vontade de ter filho normal, encontre um obstetra que te apoie nessa escolha, se informe sobre o assunto, acredite em si mesma e deixe a natureza se encarregar do resto. Você consegue!

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2 comentários em “Sobre o parto normal…

  1. Meus 3 filhos homens nasceram de parto normal.O primeiro trabalho de parto durou 3hs e 30m.O segundo 2 horas e o terceiro menos ainda.Como já me disseram,nasci para parir!Acredito que a forma natural seja a melhor para um bebê vir ao mundo.O corpo da mulher foi feito para isso. Mas também passei por uma cesárea,no meu último parto, da minha menininha. Pois precisava também fazer a remoção de um cisto e fazer a laqueadura.Meus partos normais foram na rede pública, e a cesárea na particular.Graças à Deus ambas as formas deram muito certo para mim.Morria de medo da cirurgia,pois sou daquelas que nunca fica doente.Mas Deus é tão perfeito que tudo correu incrivelmente bem.Desde a cirurgia à minha recuperação.Tudo tranquilo.Por isso toda forma de nascimento é digna.E assim como me orgulho de ter tido 3 partos normais,me orgulho de igual modo da cicatriz de amor que carrego em meu ventre.

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