Há um vilarejo ali…

 

Existe uma verdade simples sobre quem foi criado em cidade pequena. Você pode amá-la ou odia-la, culpá-la ou ressenti-la. Você pode percorrer os quatros cantos do mundo, sofrer por nostalgia ou renegar suas raízes. O fato é que você sempre trará uma parte significante da sua cidade dentro de você.

Morar em cidade pequena é como fazer parte de uma grande família não-congênita e um tanto disfuncional. Às vezes é divertido e às vezes é perfeitamente horrível, mas quanto mais velho você fica, mais você percebe o quanto esse estilo de vida só fez bem para você. Há um senso forte de comunidade; há uma conexão, um bem-querer não dito de quem mesmo não interagindo, mais ou menos te viu crescer. Cada esquina guarda uma memória, um cheiro, um gosto. Morar em cidade grande ampliou meus horizontes, mas as coisas que eu aprendi na minha pequena cidade ainda são as mais importantes e as pessoas que fazem parte dela ainda são, para mim, as mais preciosas.

Nesse fim de semana encontrei uma amiga que faz parte desse grupo de preciosidades. Como é bom olhar nos olhos de alguém que entende tão perfeitamente as peculiaridades do passado que formam seu “eu.” Como é bom constatar que embora nossas vidas tenham tomado rumos completamente diferentes, nosso vínculo formado na infância sempre existirá. Na cidade que nunca dorme, entre uma cerveja e outra, entre um idioma e outro, com o meu amor e o dela, falamos da nossa cidadezinha pacata e dorminhoca.

É engraçado como no decorrer de uma conversa descontraída com uma velha amiga, você pode encontrar-se tantas vezes face-a-face consigo mesma. É como olhar no espelho e enxergar quem você costumava ser, quanto da sua essência ainda é a mesma, quantos sonhos ainda são os mesmos e de quantos você já abriu mão. Você pensa no momento exato da bifurcação na estrada, quando escolheram caminhos diferentes e deixaram de dividir as mesmas experiências e os mesmos amigos. Aí você percebe que se a medida do sucesso é a felicidade, vocês duas estão no caminho certo.

A noite de flashback tornou-se agridoce quando recebemos a notícia do falecimento de um conterrâneo. Um jovem, como a gente. Alguém com quem, mesmo não sendo próximas, também dividíamos um passado de colégios, pracinhas e festas juninas. E é justamente nessa hora que o senso forte de comunidade vem à tona mais facilmente; o sentimento de perda, de compaixão pela família e pelos amigos em comum. Parece que “amor ao próximo” tem mesmo um peso diferente para quem é do interior.

Perder um ente querido é como perder parte de si mesmo, um braço ou um perna. No início a dor é tão física que é impossível de ignorar. O trauma é tão intenso que a mente tem dificuldade de lidar com a perda. Com o tempo a dor diminui, o corpo se recupera e o cérebro encontra novas maneiras de seguir em frente. E você segue em frente mas nunca mais será o mesmo, nunca mais será inteiro. A vida é de tal fragilidade, de tal raridade. A morte é um acidente negligente que acontece bem no meio dos seus planos. E às vezes, estamos tão consumidos por tarefas mundanas que não pensamos nisso até que seja tarde demais. É como na música Paciência do Lenine: “será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara. Tão rara.”

É precisamente isso que torna uma cidade pequena tão especial. Lá se vive com um pouco mais de calma e um pouco mais de alma. Um Shangri-la de solidariedade e compaixão contra as dores do mundo. Um templo de memórias reconfortantes. Um estilo de vida que parece ecoar as palavras de Gabriel García Marquéz em O Amor nos Tempos do Cólera: “Tenha calma. Deus espera por você na porta.”

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2 comentários em “Há um vilarejo ali…

  1. Incrível o qnto a menina mundana tem de interiorana!!!
    as mais frondosas das árvores ,tem raízes ainda mais profundas. Tenho mto orgulho de ter raizes interligadas com vc!!

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