Porque estou de mal com a Cinderela…

Sim, erámos amigas de infância mas depois de certas decepções, já não mais nos falamos. Sabe aquele tipo de amizade antiga para qual não existe mais espaço em sua vida uma vez que você amadurece e amplia os horizontes? Pois é. Aí aproveitei o embalo e fiquei logo de mal com a turma toda; todas aquelas princesas cantarolantes com cinturinhas minúsculas e personalidades de ameba.

Não foi um processo fácil; o desapego nunca é. Ainda mais para quem já trabalhou na Disney, o império americano que transformou os contos de fadas numa máquina de marketing cuspidora de dinheiro. De fato, um marketing feito de forma tão genial que você realmente acredita não estar simplesmente consumindo um produto, mas sim construindo memórias. E de memórias envolvendo princesas minha infância está cheia. Eu amava os filmes e ainda hoje se escuto uma das músicas, canto junto. Momentos preciosos e aparentemente inofensivos compartilhados não só com primas e amigas, mas gerações e gerações de meninas. Infelizmente, além de memórias, construímos também um legado cultural de valores invertidos; legado esse que eu espero não ser herdado por nossas filhas.

Eu já andava meio cautelosa com esse mundo cor-de-rosa de princesas quando fui com duas amigas assistir ao musical da Cinderela, então recém-lançado na Broadway. Sentei para ver o show a ambiguidade personificada: um lado sonhador ansioso para ser deslumbrado e um lado cético afiando a língua para os comentários sarcásticos. E aí eu fui deslumbrada, mas de uma forma bem diferente da qual esperava. Para a minha alegria, o musical apresenta a versão de Rodgers e Hammerstein criada em 1957 e pouco se assemelha a tão famosa versão do filme da Disney de 1950.

Essa Cinderela não é nenhuma donzela passiva e em apuros a espera de seu príncipe. Ela é uma leitora ávida, uma intelectual politica com ideias progressistas que vê o baile como a oportunidade ideal para alertar o príncipe sobre a realidade pobre e reprimida na qual o povo vive. Ela é tão dona do próprio destino que não deixa o sapatinho de cristal para trás por mero descuido. Não, ela controla sua narrativa tirando o sapato e o entregando ao príncipe. É uma escolha consciente. A transformação a qual o príncipe deve submeter-se, a sua reeducação política que finalmente lhe permite implementar democracia no reino, é tão importante quanto a transformação da Cinderela de “gata borralheira” em princesa. Os dois evoluem simultaneamente e com a ajuda um do outro, criando assim um relacionamento igualitário.

Fiquei maravilhada. Por que não cresci assistindo essa versão da história? Quero ser amiga dessa Cinderela! Melhores amigas, do tipo que faz festa do pijama uma vez por semana e divide todos os segredos.

Existe pelo menos 500 versões da história da Cinderela. Na coletânea de contos dos irmãos Grimm publicada em 1812, não existe Fada Madrinha. Cinderela planta um ramo de avelã no túmulo de sua mãe, e aguado com suas lágrimas, o ramo transforma-se numa árvore encantada que concede todos seus desejos. A árvore com pombas em seus galhos representa o espírito de sua mãe. Um pouco mórbido, verdade; os contos de Grimm são controversos por conterem detalhes macabros e horripilantes. Mas existe também algo de belo num amor de mãe tão poderoso que transcende a própria morte. Em todo caso, essa Cinderela é também menos passiva. Ela planta a árvore, ela pede pelo vestido, ela vai andando até o baile e decidi ir embora porque estava cansada de dançar (não porque o feitiço era desfeito arbitrariamente com o badalo da meia-noite). Quando o príncipe chega na sua casa com o sapato, Cinderela aparece suja e maltrapilha de propósito; ela quer ser vista por ele como ela realmente é. Outra Cinderela forte, esperta e perseverante.

Não é perfeito mas é um progresso! A imaginação de uma menina deve ser habitada por heroínas fortes, inteligentes, competentes e engenhosas. Personagens de substância com narrativas, cor de pele e biótipos variados. Não essa névoa de tule rodopiante cujo propósito de vida parece revezar-se entre limpar a casa compulsivamente e esperar pelo príncipe consternadamente.

Não estou afirmando que as princesas dos contos de fadas são a fonte de todo sexismo impregnado na sociedade (quem dera!), mas certamente não se trata de um argumento sem méritos. Por volta dos 5 ou 6 anos, a criança começa a perceber que seu sexo e anatomia são imutáveis. É nessa fase que ela está mais suscetivel a todos os estereótipos que nossa cultura apresenta e absorve avidamente o que a sociedade oferece como padrões de masculinidade e feminilidade. Justamente nessa fase crucial do desenvolvimento infantil, quando nossas meninas estão aprendendo a ser meninas, os contos de fadas são inseridos. Enquanto os meninos assistem super-heróis corajosos, destemidos, aventureiros e conquistadores; meninas assistem princesas passivas, superficiais e apáticas. “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela que eu?” parece ser o único tipo de mensagem propagada. Não é preciso uma análise muito profunda então para entendermos porque tantas meninas usam a sua beleza como a medida do seu valor próprio.

Talvez eu esteja sendo um tanto megera em culpar a Cinderela e sua corja pelo meu caso pessoal de amor-e-ódio com o espelho. Não estou advogando que os contos de fadas sejam banidos; aliás certos psicólogos acreditam que contos, mitos e lendas são cruciais para o desenvolvimento emocional infantil pois eles aludem as preocupações inconscientes de uma criança. Mas só não devemos esquecer que, em grande parte graças a Disney, essas histórias viraram produto de consumo e como tal devem ser consumidas de forma cautelosa. Especialmente quando o alvo de um determinado produto é o público infantil, é importante apreciá-lo com um olhar crítico. É fundamental também expor a criança a diversidade para que ela não cresça limitada e sentindo-se inadequada por não se encaixar em certos padrões.

Ainda não estou pronta para fazer as pazes com a Cinderela. Quem sabe um dia ela visite minha casa novamente a convite da minha filha. Mas ela sempre será aquela amiga um tanto inapropriada; aquele tipo de amiga do passado com a qual você não se sente confortável deixando seus filhos por medo que eles aprendam o que não devem. Uma amiga que, apesar de dividir com você uma história, não ė completamente bem-vinda.

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