Mérito Vs Culpa

Existe um certo tipo de prepotência bem característica as mães (e pais) de primeira viagem. Um certo je-ne-sais-quoi ilusório de onde brotam os julgamentos que vagam num loop impiedoso até que caiam por terra (ou melhor, na testa) na velocidade da luz. São frases do tipo “com meu filho será diferente!” que nem sempre alcançam a boca mas com frequência vagam pela mente em tom acusatório ao observamos a maternagem alheia. Ah, a doce ignorância que é acreditar que estamos no controle. Leia mais

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A Fé e a Feminista

Logo assim que Liam nasceu, em meio a enxurrada de roupinhas fofinhas e bichinhos de pelúcia que acompanharam as primeiras visitas, ganhei de uma amiga um presente diferente: o livro O Poder da Mãe Que Ora. Vivenciando a nova e estranha realidade de quem fazia pouco além de sentar com o filho dormindo no colo, li o livro rapidamente mas com a curiosidade meio dormente de quem costuma ler qualquer coisa em suas mãos. Certamente, não era o tipo de livro que me despertaria interesse. Primeiro porque eu passo longe de qualquer leitura que invoque, ainda que vagamente, o conceito de autoajuda. Segundo porque religiosidade andava há algum tempo bem afastada da minha lista de prioridades. Leia mais

Daqui, de lá, de nenhum lugar…

É um negócio bastante curioso esse de fincar raízes onde elas não brotaram. É pertencer a dois lugares, mas entender que nunca, aqui ou lá, você pertencerá totalmente. É ser refém de uma solidão constante e ainda assim se sentir absolutamente livre. É ter o coração em metades, uma aqui e outra lá, mas expandido para comportar a distância. Você se acostuma a viver com uma sensação de vazio no peito permanente ao mesmo tempo que aprecia a abundância de tudo que ter dois países para chamar de casa engloba. Leia mais

Um Brinde a Você 

Sexta-feira à noite. Talvez você esteja se arrumando para um vale night enquanto as crianças ficam com os avós e você passa o batom pensando na culpa que você (não) sente. Ou talvez sua ideia de vale night envolva Netflix e o sofá porque sair sem a cria, nem pensar. Leia mais

O Amor Sem Medidas 

Vocês imaginavam que seria exatamente assim? Quando falavam que vocês descobririam um tipo de amor único, vocês imaginavam que seria assim intenso, assim avassalador, assim deslumbrante? Eu não. Eu achava que tinha uma ideia, mas vivenciar a maternidade me fez perceber que eu não tinha mesmo noção. Não tinha noção do que é olhar para um par de olhos intensos e ter toda convicção de que por eles eu daria a minha vida. Cem vidas eu daria se cem vidas eu tivesse. É divino, não é? Vocês tinham ideia de que seria complicado assim, exaustivo assim, desafiador assim? Eu não. Mas faria tudo de novo. Percorreria os mesmos caminhos só para encontrá-lo aqui. É maravilhoso, não é? Vocês tinham dimensão, real dimensão do que aquela barriga proporcionaria? Eu não. Porque nos mais vívidos dos meus sonhos não conseguiria imaginar felicidade assim. Leia mais

A Arte de Se Fazer Desnecessária 

Acho que ser mãe é viver eternamente naquele lugar entre a nostalgia pelo que se passou e a antecipação do que ainda estar por vir. Você mal pode esperar pelos primeiros… Primeira gargalhada, primeiro “mamãe,” primeiro passo, primeiro “eu te amo.” Mas depois morre de saudades e começa a temer os últimos… Última mamada, última ninada, última fralda. O coração de uma mãe está para sempre preso nesse lugar surreal entre a alegria de ver o filho crescer e a tristeza de saber que nunca viverá certos momentos novamente. Leia mais

Bem-vinda ao clube! 

Às vezes o peso de um filho equivale-se ao peso do mundo todo. Um peso que às vezes parece que você carrega sozinha nas costas. Por mais participativo que seja seu parceiro, por mais envolvida que seja sua família, por mais extensiva que seja sua rede de apoio. A verdade é que, em certo ponto, inevitavelmente, a maternidade parecerá uma caminhada solitária para você. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, você irá se sentir numa ilha, isolada e não-compreendida. Leia mais

Os Filhos e o Mundo

Hoje tomei meu café com lágrimas e na minha boca amargava as saudades que sinto da minha mãe. Fiquei pensando em quantas vezes, desde que me tornei mãe, já escutei a frase “não pause sua vida pelos filhos pois eles um dia crescem” ou alguma variação dela, repetida, ainda que não intencionalmente, como uma forma disfarçada de escrutinizar e menosprezar a dedicação materna. Se cria filho pro mundo, todo mundo diz. As asas, as benditas asas. Eu sei, você sabe.

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Você é linda, você é forte, você é corajosa!

Voltei pra Zumba. 2 anos e meio e um filho depois, estou de volta. Quer dizer… mais ou menos de volta. Iniciei o processo.

Eu era dessas que chegava cedo, garrafa de água em mãos e tênis colorido nos pés, só para conseguir um lugar na frente. Gingado brasileiro no meio da “gringaiada” toda, vocês sabem como é. De tanto ouvir que era boa, pensei até em fazer curso para ser instrutora. Vi as datas, o preço, tudo quase acertado… aí veio o Liam. E com ele uma maneira estranha de viver onde eu não mais era o centro do meu próprio universo.
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Ser “só” mãe importa?

 

Pouco tempo depois que meu pai chegou, ele me chamou para uma conversa séria. Ele estava preocupado comigo, preocupado que eu tivesse me perdido muito dentro da maternidade. Ele acha que é hora de olhar para mim novamente, me dedicar a uma carreira, reganhar independência financeira, focar no futuro. Para ilustrar seu ponto de vista e me persuadir, ele usou como exemplo a própria mãe. Minha avó escolheu se dedicar integralmente aos 7 filhos, o que na época não gerava qualquer estranheza, na verdade era o esperado, mas ela foi dessas mães que curtia de verdade a companhia dos filhos pequenos numa época quando crianças eram para serem vistas e não ouvidas. Meu pai contou, e até então eu não sabia, que minha avó era dessas que sentava no chão para brincar, ensinava os filhos a jogar baralho, deixava com que eles desmontassem a casa, fazia lanches para turma de amiguinhos. Sentado na minha cozinha, meu pai, com os olhinhos brilhando, relembrou sua infância feliz. No entanto suas feições endureceram minutos depois, ao afirmar que nada disso parecia importar agora; ele e seus irmãos pareciam nem lembrar. Não que meu pai e tios sejam particularmente ingratos, são apenas “crescidos.” Sabe como é, a vida e sua sede incessante por continuidade. Os filhos da minha avó cresceram e formaram suas próprias famílias e à ela restou uma aposentadoria de quem nunca teve uma carreira. Leia mais